segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Aborto: a hora de rever os conceitos

Por Amanda Pinheiro

Assunto sempre polêmico na pauta das discussões sociais, o aborto voltou a ser o tema em questão, essa semana, mas de um debate comigo mesma. Dois episódios chamaram atenção e me fizeram acreditar que está na hora de rever meus conceitos. Um deles foi a barbaridade de prenderem uma adolescente na mesma cela com 20 homens. Resultado: ela foi estuprada por todos eles, o assunto ganhou repercussão internacional e agora o pessoal dos direitos humanos, como sempre fazem, travam uma guerra para mostrar que se tivessem mais poder, fariam mais. E se ela engravidasse? Ela teria o direito de abortar ou não? Foi um crime bárbaro ou é uma só criança que não teve nada a ver com isso?
Meu outro momento de reflexão aconteceu quando fui mandada para Baixada Fluminense apurar a denúncia de que um bebê recém-nascido fora deixado no Lixão de Magé. A menina, que recebeu o nome de Vitória Elizabete, em homenagem à catadora que a encontrou, sobreviveu, segundo os médicos, por dois dias ao frio, às moscas e aos ratos. Ela agora vai entrar na fila de adoção e deve ganhar uma família em breve. Essa terá um ‘happy end’. O problema é que na maioria desses casos, o desfecho é trágico. Então eu comecei a imaginar como seria se o aborto fosse permitido até um certo tempo de gestação. Melhor: se as mães, se é que elas podem ser chamadas assim, já saíssem do hospital com as tropas cortadas, acabando com qualquer possibilidade de engravidarem novamente.
Mas parece que esse assunto está ainda mais presente na pauta da sociedade. Defendida pelo Ministério da Saúde, a proposta de descriminalização do aborto foi rejeitada, mês passado, por representantes da sociedade civil, profissionais da área e gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), na 13ª Conferência Nacional de Saúde, em Brasília. O projeto foi colocado em votação no plenário da conferência, mas 70% dos presentes votaram contra. Os textos aprovados serão levados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi uma derrota para o ministro José Gomes Temporão, defensor categórico da liberação do aborto no Brasil. Ele já cogitou a realização de um plebiscito para que a população possa opinar sobre o assunto, como o que vai acontecer um Portugal. Temporão defendeu que 170 mulheres morreram durante a cirurgia para interromper a gravidez, em 2005, segundo os registros oficiais.
É pode ser...mas, na verdade, eu temo que, se aprovada, a medida abra a porteira e aborto seja inda mais comum.
A lição é que não dá mais para tratar o assunto com tanta praticidade. Existem casos e casos. A única verdade absoluta é que o país precisa urgente de uma política de controle de natalidade eficaz ou não sei o que vamos encontrar nos lixões, na Lagoa da Pampulha e nos bancos das igrejas.

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